Ficha de Leitura“Factores de risco e factores de protecção ao desenvolvimento infantil: uma revisão da área”Autores: Joviane Marcondelli Dias Maia - Universidade Federal de São Carlos
Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams – Universidade Federal de São Carlos
Introdução:O presente resumo refere o impacto dos factores de risco no desenvolvimento da criança e do adolescente. São identificados alguns factores de risco e de protecção, assim como a importância da afectividade no desenvolvimento do indivíduo e a formação da identidade.
O desenvolvimento do indivíduo depende de uma multiplicidade de aspectos internos (factores biológicos) e externos (factores ambientais) que podem causar impressões positivas ou negativas na sua vida, quer seja na saúde, no seu bem-estar ou na sua vida social. Actualmente existe maior preocupação com a protecção das crianças e adolescentes. Está prevista na lei a obrigatoriedade dos profissionais de educação em denunciar casos que envolvam a suspeita, ou a confirmação de maus tratos.
Factores de risco: Existem várias condições a que as crianças e adolescentes podem estar expostos durante a formação da sua personalidade, tais como: a negligência, violência física, violência psicológica. Os profissionais que trabalham com estas faixas etárias devem conhecer quais são os factores de risco e os transtornos que podem causar no desenvolvimento. Importa também que conheçam os factores de protecção, para compreenderem, poderem ajudar a desenvolver a resolução de problemas e promover a auto-estima nas crianças em risco.
De acordo com Reppold, Pacheco,Bardagi, Hutz (2002) os factores de risco são condições que podem influenciar a saúde e o comportamento social do indivíduo de forma prejudicial. Também Ramey e Ramey (1998) referem que os distúrbios no desenvolvimento podem ocorrer mais facilmente em crianças expostas a determinadas condições biológicas e ambientais pouco favoráveis ao seu desenvolvimento.
Segundo Garmezy (1985) os factores de risco aumentam a probabilidade da criança desenvolver uma desordem emocional ou comportamental. Esses factores podem ser de origem genética da criança, da sua família, do ambiente em que a criança se desenvolve.
O abuso, a violência e a negligência têm impacto negativo na vida da criança podendo comprometer o seu desenvolvimento. De acordo com Barnet (1997), esses factores de risco estão associados à psicopatologia do desenvolvimento, causam efeitos negativos que podem abranger várias áreas do desenvolvimento humano: cognição, linguagem, desempenho académico e desenvolvimento sócio-emocional. Quando existem maus tratos, reflectem-se nas competências e na afectividade da criança. Segundo Bandura (1976), a observação de comportamentos violentos pode servir de modelo para crianças que crescem em lares de ambiente hostil , onde aprendem a comportar-se de forma agressiva nas interacções sociais .
Autores como Piaget, Freud e Erikson referiram nos seus estudos a importância da criança na família e na sociedade. Consideraram a infância como o período em que se desenvolvem capacidades cognitivas e sociais. (Tavares, 2007, pág.63)
Relativamente a crianças que vivem em ambientes de pobreza, expostas a situações de risco, como a falta de cuidados primários (alimentação, higiene, etc), os trabalhos de Egeland e de Hiester (1995) vieram demonstrar que crianças que pertencem a meios sociais desfavorecidos desenvolvem-se mais na creche que no ambiente familiar porque são mais estimuladas que em casa. (Golse, 2005, pág. 297)
Factores de protecção:Para além da socialização no seio familiar, a escola também deve promover a socialização, dando todos os cuidados necessários ao desenvolvimento da criança e da sua identidade. De acordo com Rutter (1985), existem factores de protecção que podem ser considerados como risco ambiental, pelo facto de haver crianças que sendo muito protegidas, são consideradas “mal adaptadas”, pois demonstram poucas habilidades (competências) para a idade que têm.
Mas regra geral, os factores de protecção têm influência positiva nos indivíduos, principalmente nos primeiros anos de vida, mesmo nos que são expostos a ambientes hostis. De acordo com Hutz, Koller e Bandeira (1996, apud Reppold e tal., 2002) esses indivíduos não apresentam comportamentos de risco e actos violentos.
Winnicott considerou fundamental a forma como a criança é tratada desde o nascimento. O cuidado da mãe, a forma de pegar, está na base de todos os aspectos mais complexos. O “holding” é também a forma de proteger a criança de experiências angustiantes que possam ser sentidas e será determinante no processo de maturação que constitui o Ego de cada indivíduo, assim como a “capacidade de estar só” consigo próprio. (Golse, 2005, pág.94))
Desenvolvimento psicossocial: A família é responsável pela socialização da criança, onde a criança começa a desenvolver-se: aprende a falar, a andar, a comer e a relacionar-se. De acordo com Bee (1995) é nesse ambiente que “a criança adquire comportamentos, habilidades e valores apropriados e desejáveis à sua cultura.”. Os pais têm um papel socializador, conforme Gomide (2003), servem-se de estratégias e técnicas para orientarem os comportamentos dos filhos, referidas como “práticas educativas parentais” que poderão desenvolver comportamentos pró sociais ou anti-sociais, depende da intensidade com que usam essas práticas.
Para Guralnick (1998) a interacção da família com a criança, garantindo a sua saúde e bem estar é fundamental para o desenvolvimento da mesma. A autora Werner (1998) revela a importância da segurança e da coerência na vida da criança. Refere ainda como factores de protecção a escola e os amigos por se destacarem como “suporte emocional”, assim como a importância dos professores por poderem ser um modelo de identificação pessoal para crianças de risco.
Segundo Erikson, o contexto social é relevante para o desenvolvimento da criança, depende da interacção com a família e com o ambiente social. A identidade pessoal e cultural constrói-se nos primeiros anos, através da vivência de múltiplas emoções que serão integradas na sua personalidade. (Tavares, 2007, pág 55)
“A crise da identidade é o seu conceito mais conhecido (Erikson, 1968), referindo-se à luta interior do adolescente pela definição de si próprio.” (Kendler, 1974 ,pág.941).
É uma luta contra o isolamento na juventude, onde se reúnem todas as vivências, exigindo o desenvolvimento das potencialidades do jovem para se tornar adulto, de crescer com objectivos do que quer ser e do que pretende fazer na vida, pessoalmente/profissionalmente. A maturidade está associada à estabilidade, à autonomia e à integridade da apreensão da realidade. Os progressos estão relacionados com os estádios de desenvolvimento, verificando-se a evolução ao longo do tempo.
Bibliografia:TAVARES, José, “Manual de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem”, Porto, Porto Editora, 2007
GOLSE, Bernard, “O Desenvolvimento afectivo e intelectual da criança”, Lisboa, Climepsi Editores, 2005
KENDLER, Howard, “Introdução à Psicologia” II volume, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian , 1974
Artigo 1: “Factores de Risco e Factores de Protecção ao Desenvolvimento infantil” http://www.sbponline.org.br/revista2/vol13n2/v13n2a03t.htm
(Temas em Psicologia – 2005, volume 13, número 2” (ISSN 1413-389X))
http://www.voki.com/php/viewmessage/?chsm=a94f9291a4094217306d240c50c5ccda&mId=456110